O que é tireoidectomia total? Dr Stefano Fiuza
A palavra “traqueostomia” costuma carregar um peso emocional desproporcional à sua realidade clínica. No consultório ou à beira do leito na UTI, percebo que, para muitos familiares e pacientes, o termo evoca uma imagem de terminalidade ou de uma invalidez irreversível. No entanto, sob a ótica da cirurgia de cabeça e pescoço, a traqueostomia é, antes de tudo, um procedimento de otimização hemodinâmica e segurança ventilatória. Ela não é o sinal de que o quadro piorou, mas sim uma ferramenta técnica para permitir que o paciente recupere sua autonomia respiratória com menor esforço metabólico. Do ponto de vista anatômico, o procedimento consiste na criação de uma comunicação direta entre a traqueia e o meio externo. Normalmente, realizamos a abertura entre o segundo e o terceiro anéis traqueais. Essa manobra “encurta” o caminho que o ar precisa percorrer até os pulmões, reduzindo drasticamente o que chamamos de espaço morto anatômico — aquele volume de ar que preenche as vias aéreas superiores mas não participa das trocas gasosas. Para um paciente debilitado por um tumor de laringe ou por uma internação prolongada, essa redução do esforço respiratório é o que viabiliza o desmame da ventilação mecânica. Um dos mitos mais persistentes é a ideia de que a traqueostomia impede a fala de forma definitiva. Tecnicamente, a fonação depende da passagem de ar pelas pregas vocais. Quando instalamos uma cânula, o fluxo de ar é desviado para baixo. Contudo, em pacientes com a laringe preservada, utilizamos dispositivos como a válvula de fala (Passy-Muir) ou cânulas fenestradas. Essas ferramentas permitem que, durante a expiração, o ar suba em direção à laringe, possibilitando a comunicação verbal. É um processo de reabilitação fonológica que exige paciência, mas que devolve a dignidade ao paciente muito antes do que se imagina. Consideremos um cenário prático: um paciente com um carcinoma epidermoide volumoso na base da língua. O tumor obstrui a orofaringe, tornando a intubação orotraqueal convencional extremamente arriscada ou impossível. Nesse contexto, a traqueostomia eletiva, muitas vezes realizada sob anestesia local e sedação leve, é o que garante uma via aérea segura antes mesmo de iniciarmos o tratamento com radioterapia ou quimioterapia. Sem esse acesso, o risco de uma asfixia aguda por edema pós-tratamento seria inaceitável. No manejo pós-operatório, a atenção se volta para a umidificação e a higiene. Como o ar deixa de passar pelo nariz — nosso filtro e aquecedor natural —, a traqueia tende a produzir mais secreção para se proteger do ar seco. É aqui que entra o papel crucial da equipe de enfermagem e da família: a limpeza regular da cânula interna (o “mandril”) é vital para evitar a formação de rolhas de muco que poderiam obstruir a passagem do ar. Não é um cuidado complexo, mas exige disciplina técnica. Diferente do que muitos pensam, a traqueostomia é frequentemente reversível. O processo de “decanulação” ocorre assim que a causa primária da obstrução ou da fraqueza respiratória é resolvida. Realizamos testes de oclusão, onde o paciente volta a respirar pela via natural enquanto a cânula permanece fechada. Se o conforto respiratório se mantém, o dispositivo é removido e o orifício (estoma) costuma fechar-se espontaneamente em poucos dias, deixando apenas uma pequena cicatriz linear no pescoço. A transição do medo para a aceitação passa pelo entendimento de que a cânula não é uma prisão, mas uma ponte. Seja para proteger os pulmões de aspirações em pacientes com disfagia grave ou para garantir que um paciente com trauma facial possa respirar enquanto os tecidos cicatrizam, a traqueostomia é um dos procedimentos mais versáteis e salvadores da nossa especialidade. Quando bem indicada e executada com técnica refinada, ela reduz o tempo de internação e, acima de tudo, preserva a vida para que o tratamento definitivo possa ser realizado com a calma que a medicina de excelência exige.
Dr Stéfano Fiúza – Cirurgião de Cabeça e Pescoço
Visc. de Pirajá, 303 – 9º Andar – Ipanema, Rio de Janeiro – RJ, 22410-001
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